sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Revolução em Lisboa - 1383

«Se outros per ventuira em esta cronica buscam fremosura e novidade de palavras, e nom a certidom das estorias, desprazer-lhe-á de nosso razoado, muito ligeiro a eles d'ouvir e nom sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós, nom curando de seu juizo, leixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade.»
Fernão Lopes




Já antes havia falado de como um Bastardo foi nomeado pela alvoraçada populaça Lisboeta em Defensor do Reino, impondo a sua vontade à grande Nobreza e Clero, mas também à hesitante burguesia... Não resisto a aqui colocar o relato de Fernão Lopes...  Cá vai com sublinhados meus...


Então o comum povo livre e não sujeito a alguns que o contrário disto sentissem lhe pediu por mercê que se chamasse Regedor e Defensor dos reinos, e ele vendo este seu grande desejo, e tendo ademais presente o conselho de frei João e dos outros que sobre isto lhe haviam falado, outorgou de o fazer contanto que eles se juntassem todos naquele dia, no mosteiro de São Domingos, para lhes haver de falar do que sobre isto entendia fazer em razão da sua ficada, pela qual tanto o requeriam, e eles disseram que tal lhes prazia muito. Junto nesse dia muito povo da cidade naquele mosteiro, expôs o Mestre como se entendia de partir do reino e as razões porquê, que já dissemos, depois, como lhe fora muitas vezes requerido por eles que todavia ficasse por seu defensor, e que ele se escusara disso por certas razões que logo lhes indicou, mas pois que eles tanto se afincavam a que todavia não partisse e ficasse na cidade, ele, para serviço e honra do reino, determinava em sua vontade de ficar, contanto que eles tivessem maneira de o servir e suportar naquela honra e estado que cumpria para defensão do reino.

E eles a uma voz, não esperando que falasse um por todos, mas quantos aí eram juntos, altamente disseram que lhes prazia muito de o servir e ajudar com os corpos e haveres até morrerem todos diante dele. E o Mestre respondeu então, que pois eles assim diziam e o queriam servir, que a ele prazia de tomar carrego de ser seu defensor e pôr o corpo a qualquer aventura por honra do reino e sua defensão e deles.

Quando o Mestre outorgou desta guisa de ter cuidado e regimento do reino, toda a tristeza foi fora das gentes e seus corações não deram mais lugar a nenhum passado medo, mas todos ledos sob boa esperança, fundada em bem-aventurada conclusão, se animaram para levar seu feito adiante, tendo grande fé em que Deus os havia de ajudar. E disseram logo ao Mestre que porquanto na cidade havia muitos honrados cidadãos que ali não estavam presentes, que estes fossem chamados à Câmara do Conselho e lhes fosse razoado e proposto tudo quanto ali fora dito, de guisa que outorgassem todos o que eles disseram e queriam fazer.

O Mestre disse que era muito bem, e foram ao outro dia todos chamados. E sendo assim juntos naquela Câmara da cidade, foi razoado por parte do Mestre como todo o povo miúdo o recebia por seu regedor e defensor, e que agora era a eles requerido se lhes prazia de outorgar aquilo que todo aquele povo tinha outorgado.




Não respondia ninguém, calando-se todos, e alguns falavam muito baixo à orelha dos que se sentavam à beira deles, além de que não dava nenhum resposta que mostrasse que consentia em coisa que os outros dissessem, não por a eles não lhes aprazer de a cidade e o reino serem defesos dos inimigos, mas porque todos estes duvidavam muito de tal coisa poder ir adiante e haver depois bom fim, e no entanto já a vontade do povo miúdo era muito pelo contrário. Depois tinham grande receio da Rainha lhes acoimar isto com grandes tormentos, como fora feito no tempo delRei dom Fernando quando lhe contradisseram o casamento dela com ele.

E duvidando estes que foram chamados, e não respondendo ao que lhes diziam, era ali muito povo junto, entre o qual estava um tanoeiro que chamavam Afonso Anes Penedo, que estivera presente com todos os outros quando se juntaram em São Domingos outorgando de receber o Mestre por senhor, e vendo que não falava nenhum dos mais honrados da cidade que eram presentes, começou de andar passeando-se, e pôs a mão numa espada que tinha cinta e disse:

Que estais vós outros assim cuidando? E porque não outorgais o que outorgaram quantos aqui estão? E como! Ainda vós duvidais de tomar o Mestre por regedor destes reinos, e que tome carrego de defender esta cidade e nós outros todos? Parece que não sois vós outros verdadeiros portugueses. Digo-vos que, quanto a por essa guisa, buscai-nos vós que sejamos todos cedo em poder de castelhanos.

Entretanto trocavam-se entre eles algumas razões sobre isto, mas nenhuma resposta se dava qual cumpria, porquanto esses maiores se receavam muito das razões que já ouvistes.

Então aquele tanoeiro acima nomeado pôs outra vez a mão na espada e disse contra aqueles a quem se fazia tal requerimento: 
Vós outros que estais assim fazendo? Quereis vós outorgar o que vos dizem? Ou dizei que não quereis, pois eu nesta coisa não tenho mais aventurado que esta garganta, e quem isto não quiser outorgar logo é forçoso que o pague com a sua antes que daqui saia. 
E todos os que aí estavam do povo miúdo aquela mesma razão disseram.

Vendo os que foram chamados o alvoroço que todos faziam e que lhes não convinha ter nisto outro jeito em contrário, outorgaram então quanto os outros tinham prometido, e foi assim escrito e assinado por suas mãos. E desta guisa foi o Mestre tomado por Regedor e Defensor do reino, na qual regência e defensão que fez bem se mostrou depois sua virtuosa ardideza, como adiante podereis ver.


Má Nada!!!