terça-feira, 10 de junho de 2008

Á PEDRADA!

Recentemente tem havido um inegável incremento da confrontação social. São 100 mil professores num dia, 200 000 da CGTP noutro, é o fecho das urgências, o piquete da Valor Sul atacado à bastonada, os pescadores a parar e os confrontos na lota de Matosinhos e agora a paralisação dos transportes. E este recrudescimento da confrontação não tem sido apenas quantitativo, mas também qualitativo, é sobre isto e focando-me na paralisação de hoje que me debruçarei um pouco…

Protestos Consequentes

Antes de mais, pela primeira vez desde que estou a trabalhar um protesto social afectou directamente o meu trabalho, várias actividades que estavam programadas para hoje não decorreram por falta de fornecimento de materiais. E se o bloqueio continuar as consequências/custos para o tecido empresarial português serão de monta.
De facto uma manifestação com 200 000 é um sinal de grande força e vitalidade, uma greve que paralisa o sector público é também um facto significativo, mas não é mais do que uma demonstração visível de descontentamento e mal estar, não coloca a produção ou a vida social em causa, por outras palavras, não condiciona de forma directa a tomada de decisões da outra parte (ver este post do we have Kaos…)… É como um grande berro, não é o mesmo que uma bolachada que deita abaixo o adversário.
Nos dias que correm parar a produção numa fábrica, ou serviço determinado, não faz parar a máquina produtiva, um protesto social que queira causar mossa tem de cortar os canais de distribuição de mercadorias e pessoas. Ou seja mais do que parar vinte empresas, cinquenta escolas e quinhentos restaurantes, o que para a economia (e os lucros do capital) é bloquear as comunicações. Com estradas e comboios paralisados não circulam bens e mercadorias necessários, assim como a mão-de-obra para os processar. Os protestos sociais que queiram ser mais do que um acto simbólico terão de levar esta realidade em conta.
Outro aspecto interessante que tem o protesto de hoje é o facto de ser feito à margem da Associação que supostamente representa o sector, foi uma comissão had hoc formada no plenário de sábado passado (se não me engano foi no sábado…) que organizou este protesto e dá-me ideia que à medida que as notícias foram passando, o bloqueio foi alastrando e ganhando força. Em comum com o protesto dos pescadores tem o facto de ser um protesto de patrões e trabalhadores (todo um sector, embora no caso dos transportes sem tanta coesão, mas como o seu peso na economia é mais decisivo, mesmo menos coesos causam muito mais impacto) e de ser uma paragem por tempo indeterminado…
O governo está numa posição complicada, se não ceder, este é um protesto que a manter-se irá abalar e muito a economia, não sei que coelhos é que poderão sacar da cartola e o problema (para o Governo) é que se cederem (sinceramente alguma coisa terão de dar…) abrirão margem para protestos noutras áreas…

Sobre o uso da Força

Um factor decisivo no alastrar desta contestação (não nos esquecemos que é promovida por Patrões, umas quantas centenas deles bastam para parar milhares de camiões, o que é logo um grande capital inicial…) foi o uso de piquetes de “sensibilização”, mais ou menos musculados (a coisa pareceu-me relativamente espontânea e variável) e as pedradas aos veículos que furaram a paralisação. Posso assegurar em primeira mão, que muitos transportes não saíram à rua para as suas distribuições devido ao medo das ditas “pedradas” e dos danos resultantes… Mais eficaz isto é quando, obviamente, já existe uma predisposição para parar e quando a situação é de tal modo grave que há a sensação que alguma coisa é preciso fazer…
Aqui toco o busílis da questão, e volto ao ponto anterior, um protesto consequente tem de ser massivo, pode acontecer, como no caso dos professores, que todo o sector em massa adere ao protesto, mas uma coisa é uma manifestação ao fim de semana, outra coisa é parar o país. E há sempre franjas mais frágeis e pressionáveis de um dado corpo que para aderirem ao protesto precisam daquele pretexto, ou desculpa… Se se decretar uma greve geral muita gente não poderá, por pressão do patrão e outras, faltar ao trabalho, mas se não tiver meios de lá chegar ou for impedido por um piquete ou bloqueio já tem o pretexto/desculpa para aderir ao combate e parar sem tanto medo de represálias. Ainda a semana passada o meu chefe mais uns colegas, queixavam-se da situação actual “o que era preciso era bloquear as entradas de Lisboa! Ponto final ninguém sai nem entra!”, outro dizia “como é possível um sector desta importância não estar nas mãos do estado? Como é que entregaram isto a privados, claro só querem é o seu!”. Bem isto não são funcionários públicos, nem militantes do PC ou BE (embora desconfio q dois deles tendam bem mais pás esquerdas, que pá direita), são quadros de uma grande empresa privada… Ou seja, nem sempre a relação de forças permite acções mais “musculadas”, no entanto quando o problema é grave e existe ambiente social propício há que por o pé no acelerador e não ficar pela metade! O recurso à sensibilização “musculada” fez muito para o sucesso desta acção dos transportes.
Há uns tempos, veio a Lisboa, um activista estudantil francês falar sobre o CPE, quando perguntado se as greves que faziam era com bloqueio e fecho da faculdade, ele respondeu “Claro! Se não os professores marcam falta, há testes… e os estudantes têem de ir… Com bloqueio não”, voilá! Quando era dirigente estudantil, também uma vez em RGA sugerimos a realização de uma paralisação, a malta estava receptiva e logo da plateia várias vozes se levantaram e disseram o óbvio, paralisação sim, mas temos que bloquear as entradas para não haver aulas! E assim foi… Mesmo que meia dúzia de cromos fiquem irritados, o grosso da coluna é ganho, quando a coisa é a medo e “só faz quem quer e blá blá” a malta sente que é um protesto fraco e adere menos… Para que gastar tempo e energias em protestos que não vão dar em nada? Regra geral só mesmo os indefectíveis do costume aderem a esses protestos…
Infelizmente neste país ainda há muito “nacional-totosismo”… Com isto refiro-me àquela linha de pensamento[1], misto de naifeté de esquerda e provocação direitista, de que não podemos forçar as pessoas a participar, que a greve para ser válida tem de partir de cada um e não pode ser imposta, que não temos direito a impedir de ir às aulas, ou trabalhar, quem queira… Pois é, esquecem-se é da pressão e coacção tremenda que existe para não faltar às aulas e não faltar ao trabalho (toda a bateria de sanções que a entidade patronal pode utilizar da pressão psicológica ao despedimento), para contrabalançar essa força é que é indispensável que do outro lado as pessoas sintam confiança e capacidade de se defenderem dessas coações. Para além disto quando os benefícios da luta vão para todos, é mais que justo que todos participem na luta, seja na escola, trabalho ou sociedade em geral.
Nestes tempos em que as coisas estão a fiar mais fino, cada vez há menos disposição para aturar “nacional-totosismos”, não é disso que a malta precisa e é bom que tod@s estejamos bem cientes disso. Convido a reler o que já escrevi sobre a questão da viloência aqui.

Alerta

Novos tempos sem dúvida, lançarei mais dois alertas e para acabar mostro um sinal desta era.
Primeiro é que obviamente não defendo que em qualquer acção se deva participar de cocktail molotov na mochila, pedra numa mão e cacete na outra. Há momentos e espaços, há contextos e vontades. Mas não posso deixar que dizer que nos dias que correm, vamos precisar de mais que desfiles para mudar o rumo da história… Chamo a atenção para importância dos processos de luta nascerem de discussões livres e amplamente participadas. Só assim se ganha legitimidade e força para tomar medidas duras. Tem um significado completamente diferente uma assembleia de mil estudantes decidir, em discussão acesa, fechar a escola, ou um directório de vinte iluminados o decidir no fundo de uma qualquer cave… Até porque só processos democráticos e amplamente participados permitem juntar esforços e forjar a confiança necessária às acções mais ousadas e lutas mais prolongadas… É a partir daí que nascem os germens de colectivos que podem sustentar um novo poder no melhor dos casos, ou uma luta dura na pior…
Em segundo lugar esta paralisação (não tendo este sinal hoje! Ao contrário do que se passou no Chile em 73) dá ideia do que um sector do patronato pode fazer… é certo que os trabalhadores também estão mobilizados, mas atenção à força social do patronato unido… Na Venezuela a Revolução durante o lock-out venceu o braço de ferro porque tinha o apoio da população e de uma instituição com muitos meios, o exército (abriram armazéns, distribuíram bens, ocuparam muitos postos antes nas mãos de privados…). Em Portugal qualquer governo de esquerda que comece a tomar medidas a sério também será pressionado. No confronto social no terreno os votos valem o que valem, são parte importante para ganhar legitimidade, mas não ganham batalhas na rua… Para isso é preciso força social, instrumentos, capacidade de mobilização. Nunca nos esqueçamos disso.

Para acabar vejam esta imagem…



Notem no canto inferior esquerdo, é a primeira vez que vejo a bandeira da UE, queimada numa manifestação, é a queda de um mito… Diz muito sobre o estado do “Projecto Europeu”.

PS - Ainda não me esqueci do texto de balanço da festa Agora e Aqui! No cenário actual isso é muito importante!

[1] que inclusive alguma malta da suposta esquerda partilha.

1 comentário:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Pela parte que me toca, prefiro ser nacional-totosista que legitimar seja o que for, num estado que se diz de direito e democrático, com coacção e pedradas. É uma questão de defesa da liberdade. A sério. Habitualmente este tipo de argumentos cessa quando quem os apresenta leva a tal pedrada.