quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Primeiras Impressões

Antes de me lançar a um texto de análise à, periclitante, situação actual do Médio-Oriente, decidi fazer uma espécie de revisão da matéria dada… Nesse sentido publiquei já neste blog um texto elaborado antes de iniciada a guerra do Iraque, o post “Recapitulando”.
O texto que abaixo segue foi escrito pouco depois de começada a invasão (para aí em Junho-Julho de 2003). Elaborei-o para um boletim de preparação do acampamento de Jovens da IV.
Espero acabar este fim-de-semana o texto que tenho vindo a fazer sobre a situação na Venezuela, assim que o acabar vou então escrever o “Solução Global ou Guerra Total”, sobre Iraque, Irão & Cª Lda.


Caos na Babilónia

Com o final da 1ª guerra mundial o Império Otomano é desmembrado e o Médio-Oriente é repartido entre Franceses e Britânicos. De três ex-províncias otomanas os Britânicos criam o Iraque, habitado por Curdos a norte, Árabes sunitas na zona central, Árabes xiitas no sul, mais as minorias Assírias (cristãos) e de Turcomanos. Logo em 1919 há uma revolta em Najaf, em 1920 há outra que se alastra por todo o sul xiita e a que se juntam os Curdos. Para sufocar a revolta o na altura secretário da Guerra de sua Majestade, SirWinston Churchill, aprova o uso de armas químicas por parte da RAF (Royal Air Force) contra as "tribos incivilizadas". Em 1921 entregam o trono ao rei Feisal, que continuou a ter de lidar com sublevações curdas...

Esta monarquia fantoche foi derrubada a 14 de julho de 1958, num golpe de estado dinamizado por um grupo de oficiais do exército, os "Oficiais Livres". Estes tinham alguns ideais socialistas e sobretudo vontade de libertar os países árabes do domínio dos EUA. Nesse mesmo dia enormes manifestações (100 mil pessoas em Bagdad) varreram tudo o que poderia ter restado do anterior regime, transformando o golpe numa verdadeira revolução Foi instaurada um novo governo com Abdel Karim Kassem (um dos .Oficiais Livres} à cabeça.

Os comunistas Iraquianos tiveram um papel determinante nestes acontecimentos, fundado em 1934 o PCI (partido comunista Iraquiano) tinha grande influência junto dos trabalhadores (sobretudo nos ferroviários e indústria do petróleo) e foi a principal força de oposição há monarquia Com a revolução de 58 não só passaram a estar presentes no governo, como em 1959 organizaram uma manifestação com um milhão de pessoas em Bagdad (nesses tempos o pais tinha seis milhões e meio de habitantes), no entanto logo a partir de 1960 começa a vaga de repressão sobre o partido que continuará até ao inicio dos anos 80, depois disso apenas na zona Curda os comunistas mantiveram alguma influência...

Em 1963 há um novo golpe de estado com o envolvimento do partido Ba'ath, até 1968 a situação permanece instável com uma sucessão de golpes e contra-golpes. É a partir de 68 que o Ba'ath agarra definitivamente a situação (com apoios da CIA) primeiro com AI-Bakr e a partir de 79 com o famoso Saddam Hussein

Durante todo este período, o estado é o principal motor de desenvolvimento económico. a par disso transforma-se também na instituição que através da repressão e controlo social mantém o pais unido e submetido ao regime Ba'athista Apesar da férrea ditadura é inegável que o Iraque foi dos países da região onde as mulheres tinham menos restrições na vida pública e as minorias religiosas gozavam de maior liberdade. A vontade de afirmar uma política independente e até antagónica em relação aos EUA é também uma marca do regime. Exemplificativo disso são atitudes como o apoio dado aos Palestinianos e a aproximação feita à ex-URSS. .

As relações com o "Uncle SAM" dão uma reviravolta em 1979, devido à Revolução Islâmica no Irão que depões o Xá da Pérsia, outro monarca fantoche americano. Para sangrar esta revolta os EUA recorrem a Saddam, também receoso dessa sublevação que poderia desestabilizar o seu regime. O Iraque passa então a aliado dos EUA. Recebe apoio militar e logístico na invasão do Irão e subsequente guerra (1980-1989), para além de assistência na supressão de revoltas Curdas. (nesta altura Saddam utilizou armas químicas), para tal chegou a receber o apoio de tropas turcas enviadas pela NATO...

Em 1991 a situação dá mais uma cambalhota. Com a situação interna a degradar-se e sentindo as costas quentes a nível externo, Saddam faz uma fuga em frente e invade o Koweit... A partir desse momento é descrito como a encarnação do mal na terra, desencadeia-se a guerra do golfo. Mesmo assim o regime não cai, as tropas da coligação "libertam" o Koweit e infligem pesadas baixas (cerca de 150 mil homens. na maioria jovens recrutas) ao exército Iraquiano, mas a Guarda Republicana e as tropas mais leais a Saddam estavam em lugar seguro quando começou o "fogo de artifício". Terminada a guerra dão-se insurreições no Sul Xiita e no norte Curdo, Bagdad e arredores mantém-se controlada por Saddam. As forças poupadas durante a guerra são agora lançadas e esmagam as revoltas populares, datam dessa altura a maior parte das valas comuns agora encontradas. George Bush I fica a assistir, pior seria surgir um estado democrático e independente na região. Brent Scowcroft, conselheiro do Presidente para a segurança Nacional não teve papas na língua "O que acontecerá se da primeira vez que se realizem eleições no Iraque acabarem por ser os radicais a vencê-las? 0 que é que fazemos? Obviamente não os deixaremos tomar o governo"*1

Chegados ao ano da graça de 2003, o status quo mantido após a guerra do golfo é quebrado. Movidos por uma política ultra agressiva, que vê na componente militar um dos principais, se não o principal pilar da manutenção da supremacia mundial norte-americana (numa altura em que a sua supremacia económica é cada vez mais contestada) os novos senhores de Washington exibem o seu poder primeiro no Afeganistão e em seguida no Iraque. Este era o elo mais fraco na geo-política do médio oriente. Isolado no plano internacional, Com um exército debilitado, um regime sem grande sustentação, uma posição central nessa importante região do golfo e nadando em abundantes reservas petrolíferas, o Iraque era um fruto maduro pronto a ser devorado até ao caroço.

Ao quarto dia de guerra relatos*2 de militares das forças da " coligação fazem um retracto da situação: o Major Graham Prowse dos Royal Enginners diz a propósito da captura dos campos petrolíferos de Rumaila (dos maiores do mundo) "Os rapazes fizeram um trabalho magnífico.. Salvámos a maior parte das infra-estruturas.. Temos alguns poços a arder, mas nada da dimensão que estávamos à espera.”; Robert Macleod da 7ª Brigada Aérea de Assalto no sul de Basra fala noutro tom "Esta gente ainda está cheia de armas, nós não sabemos se é o exército, ou civis que pegam em armas que estão a disparar contra nós.”; O sargento dos Marines Stephen Francois afirma" Há muita pilhagem a acontecer", isto após os seus homens terem apanhado um grupo que estava a saquear mísseis terra-ar, granadas, morteiros, etc...

Os objectivos militares da operação anglo-americana eram dois: assegurar rapidamente o controlo sobre a infra-estrutura petrolífera, chegar a Bagdad e derrubar o regime... Ambos estes objectivos foram atingidos a questão é que a coligação não só destruiu o regime, como o próprio aparelho de estado cessou de funcionar à medida que as tropas iam avançando. Num país em que todos os principais serviços eram assegurados pelo estado e este empregava mais de 50% da população é fácil perceber a situação de caos gerada. Sem qualquer força organizada preparada para tomar o lugar do Ba'ath o poder diluiu-se. A pilhagem generalizou-se, as máfias e os oportunistas prosperam, a criminalidade disparou. Segundo Bernardo Ribeiro e Cátia Palma*3, dois médicos portugueses a prestar auxílio num Hospital a 40 Km de Bagdad, as três maiores causas de tratamento hospitalar são os ferimentos de bala, acidentes de viação e dirréia (porque a água não é tratada). Segundo estes o nível de segurança tem vindo a diminuir, mas a presença militar americana é cada vez mais reforçada, existem inúmeros check-points com tanques por toda Bagdad

Já seria de esperar que o poder dos religiosos saí-se reforçado com a guerra, em muitos locais a mesquita foi a única instituição que permaneceu ligada ao tecido social, a única fonte de poder respeitada por um considerável número de gente. Foi a partir de muitas mesquitas que se travaram os excessos das pilhagens, se restabeleceu a segurança nos bairros, se reactivaram alguns serviços básicos e até se constituíram juntas que governam muitas localidades desde aqueda do regime. As Fatwas, ou decretos religiosos, substituíram a lei secular para .largas camadas da sociedade Iraquiana... O reverso da medalha é que começam a surgir fenómenos nunca vistos, como a obrigatoriedade das mulheres usarem véus em determinados locais públicos, ataques a lojas de bebidas alcoólicas e a cinemas que passam filmes estrangeiros.

Entretanto surgem outros sinais mais promissores, sindicatos, organizações de estudantes e mulheres estão a renascer, em inúmeras fábricas, escolas e hospitais, são os trabalhadores que passaram a gerir as operações e que sanearam os militantes do partido Ba'ath dos seus postos. Têm se desenvolvido greves e manifestações de trabalhadores do petróleo, dos portos, ferroviários, policias, ex-militares e desempregados contra a ocupação Anglo-Americana e as medidas que têm sido tomadas - a privatização de serviços, desmantelamento do exército deixando 400 mil homens sem meios de subsistência, ou pura e simplesmente o abandono de todas as responsabilidades referentes a hospitais, estações eléctricas e outras estruturas básicas que permitem a um povo viver dentro de níveis mínimos de dignidade. De referir que o primeiro jornal da era pós-Saddam a ser distribuído em Bagdad foi o orgão oficial (Tariq al Shaab) do revigorado Partido comunista Iraquiano e que no dia 14 de julho houve uma manifestação (imprensa fala em milhares de pessoas) dinamizada pelo PC iraquiano comemorando a revolução de 1958.
É de esperar um aumento no número de emboscadas e ataques sofridos pelos soldados Americanos, é difícil dizer quem está por trás deles... ex-guardas republicanos e agentes de Saddam? Grupos de militares desmobilizados e de desempregados sem nada que fazer? Pessoas que tiveram familiares e amigos mortos na guerra ou que foram humilhadas durante buscas efectuadas pelos gringos? Fanáticos islâmicos? A resposta mais provável é que seja de tudo um pouco. A forma como são realizados os ataques é reveladora. Uma coisa é um soldado abatido por um sniper, ou um carro armadilhado explodir e destruir um jeep Americano, outra, bem diferente, é como aconteceu numa cidade Xiita fronteiriça com o Irão, Majar al-Kabir, em que uma multidão armada até aos dentes cercou 6 soldados britânicos na estação de policia e dizimou-os. Segundo os locais foi uma acção de retaliação contra os Britânicos, pois estes no mesmo dia mais cedo tinham disparado no mercado da cidade contra uma multidão vitimando várias pessoas... Para além destas acções visando directamente os ocupantes também têm sido sabotados oleodutos e instalações petrolíferas, bem como assassinados iraquianos que colaboram com as forças invasoras. No entanto, é na zona de Bagdad e arredores de maioria sunita (foram estas as populações mais beneficiadas nos tempos de Saddam e agora com mais a perder) que se têm concentrado o grosso dos incidentes, no sul Xiita mais dominado pelos clérigos a estratégia tem sido a de organizar manifestações pacíficas a pedir um governo representativo do povo iraquiano.

Aliás, os principais partidos e grupos organizados no Iraque, destacados dirigentes religiosos (xiitas e sunitas), bem como muitos lideres tribais são cautelosos quanto a uma ruptura com as forças invasoras: "estamos a acalmar as pessoas, esta não é a altura ideal para a jihad", diz AI-Ubaidi (Imã da principal mesquita sunita de Bagdad), "As pessoas pedem-nos para lançarmos a Jihad, nós estamos a convencê-Ias que temos de esperar para ver se os americanos irão permitir que os Iraquianos se governem a si próprios. Temos de esperar para ver, depois tomaremos uma decisão."*4. É neste contexto que muitas destas forças (incluindo Hamid Majid Mousa, secretário geral do PC Iraquiano) aceitaram fazer parte do pseudo embrião de governo nomeado pelos americanos denominado "Conselho Iraquiano".

É claro que através, apenas, da presença militar será impossível controlar o Iraque. Por mais numerosos e bem armados que estejam os marines, sem ligações à sociedade iraquiana, sem uma infra-estrutura social e política de apoio será impossível derrotar um inimigo que pode sei qualquer um dos 24 milhões de cidadãos Iraquianos.

Contudo, por agora são os EUA quem mais ordena na pessoa do Governador L. Paul Bremer III, não tendo muita experiência na reconstrução de um país, o seu currículo não deixa de ser invejável. Nos anos 80 foi responsável por programas de contra-insurgência na América Latina, eufemismo para organizador de esquadrões de morte que arrasam vilas inteiras. Na sua lista de prioridades, para além do mais que óbvio controlo do petróleo, está também o projecto de reestruturação total da economia. O objectivo é destruir o modelo centrado no controlo estatal, por uma sociedade de mercado pura e dura em que as empresas norte-americanas para além dos contratos de reconstrução (pagos com o petróleo Iraquiano) irão adquirir as empresas estatais lucrativas e destruir todas as outras, de forma a abrir o mercado aos seus produtos. Já estão a trabalhar na reconversão (saque seria a palavra correcta...) da indústria alimentar, têxtil e outras do Iraque importantes executivos de multinacionais Estado Unidenses. A ideia a médio prazo é propagar este sistema neo-liberal por toda a região... A aposta é muito alta, tanto ao nível dos riscos, como dos ganhos. Donald Rumsfeld (conhecido dos amigos como "o príncipe das trevas" ou "Darth Vader") diz-nos "É duro? Claro, Vão ser mortas mais pessoas? De certeza. Custa dinheiro? Podem apostar É possível dizer ao mundo ou a quem quer que seja precisamente quanto vai custar ou quanto tempo vai durar? Não."*5

Neste momento o Iraque é um caldeirão de forças e interesses contraditórios, no entanto uma coisa é certa, qualquer esboço de democracia e autodeterminação para o povo iraquiano só será possível com a retirada das tropas Anglo-Americanas e a derrota do seu projecto imperial para o Iraque e Médio-Oriente. Mais! Uma derrota no Iraque afectará todo o projecto de reconstrução económica, política e social para o século XXI dos neo-conservadores estejam eles na Casa Branca ou no Palácio de São Bento. Não será apenas uma lição para o aventureirismo militar mais arrogante "à lá gringo", será uma derrota para as políticas ultra-securitárias pós-11 de setembro, para a expansão desenfreada do mais selvagem neo-liberalismo.
O papel do movimento anti-guerra é fundamentar. Todos os obstáculos postos à ocupação pelo movimento global serão um contributo para a libertação do povo Iraquiano, cada passo dado pelos Iraquianos a caminho da autodeterminação será uma vitória para o movimento. O que acontecer na mítica Babilónia irá marcar o destino da humanidade por muitos e bons anos.

*1 Int'1 Socialist Review 2003/07/14
*2 Financial Times 2003/03/24
*3 Público 2003/07/11
*4San Francisco Chronicle 2003/07/14
*5público 2003/07/15

Sites:
Antiwar.com; www.iraqwar.ru; www.zmag.org; www.iraqcp.org; www.guardian.co.uk; www.latimes.com; www.almuajaha.com

4 comentários:

rack disse...

o post é longo mas interessante. o rei faisal tem uma história muito curiosa, foi um homem inteligente, ha uns tempos deu na RTP 2, o único sitio onde esssas coisas podem dar na TV portuguesa, sobre o rei faisal, talvez num post futuro nos pudesses dar também uma visão resumida sobre ele. parabéns pelo trabalho.

rack disse...

não posso acreditar....tens censura nos comments...que cena...é nisso que queres que a revolução acabe? ou esperavas alta chuva de comments contra ti e o teu blog de modo que criaste logo uma prévia análise para prevenir comentários da direita ?

francamente...

Francisco disse...

Oh chefe... Bom, presumo que estejas a brincar, mas como há líricos q até vão em cantigas aqui vai.
Não faço censura, o objectivo não é anular o contraditório, como sabes o site ainda nem está muito divulgado e eu até adoraria que causa-se polémica e suscita-se discussões. Venham elas da esquerda, centro, ou direita...
Agora, confesso que não tenho paciência para palhaçadas e coments do estilo "o meu pirilau é maior q o teu" ou o "Francisco faz xixi nas cuecas".
Acho q é não apenas um direito, mas um dever, zelar para que neste blog as discussões possam ser o mais acesas possíveis, mas com um mínimo de seriedade.
Que isso possa implicar alguma arbitariedade da minha parte, é verdade... mas censura seria se só o meu blog fosse permitido o que está longe de ser um facto :) e muito menos seria isso desejável... Creio q o risco de existirem avalanches de posts patéticos será bem mais prejudicial à livre discussão do que a moderação que eu exerça sobre os posts.
E como, bem salientas-te, o blog ainda é completamente underground portanto os riscos que enuncio nem são reais por equanto, mas isto é para mim uma questão de princípio e até de exemplo...

santinha disse...

Grande post, mas com grande conteúdo. . muito interessante!
Anseio por lêr mais.