quinta-feira, 27 de março de 2008

O Regresso do Mahdi

Há coisa de poucos dias a Guerra do Iraque fez 5 anos, é o conflito, a contradição mais determinante dos nossos tempos. Este brutal conflito não só vitimou mais de 4000 soldados ao serviço do Império (já para não falar dos serviçais civis e dos mercenários contratados, cujos números são menos conhecidos), não só deu origem ao maior movimento de refugiados dos nossos dias, não só se calcula que tenha vitimado cerca de um milhão de Iraquianos… Este conflito demonstrou que a marcha Imperial não será uma procissão triunfal a que a populaça assiste alegre atirando flores ao cortejo… Não, não só o mapa de um novo médio-oriente, a surgir, será em sentido oposto ao pretendido pelos EUA e Israel, mas também no resto do mundo se abre espaço para alternativas aos dictats de Washington, veja se o caso da América Latina.

Vivemos novos tempos, o “fim da história”, o “consenso de Washington”, a globalização feliz, pertencem já a outro momento… As contradições inerentes ao desenrolar do processo histórico irrompem ao rubro, regressamos a uma era de conflitos, o consenso já não é regra, o que é extremamente positivo é o sinal, é a prova, que existe esperança para além da inexorável caminhada rumo à Barbárie neo-liberal tutelada pelo Imperador na Casa Branca. Obrigado Resistência Iraquiana, obrigado Hezbollah (a histórica vitória da resistência Libanesa face a Israel foi também um momento decisivo dos últimos anos), obrigado Chavez, obrigado a todo o movimento popular que se manifesta do Nepal (maoistas derrubam monarquia absoluta), passando pelo Tibete, Paris(derrota do CPE e no referendo à constituição), Alemanha (nova esquerda dá cartas) e mais exemplos há! Veja-se o nosso cantinho também, muito se pode fazer haja vontade e unhas para tocar guitarra! Bom claro que com análises como a que abaixo cito não vamos a lado nenhum:

A esquerda tem sido derrotada. Desiluda-se quem, constatando esta derrota, procura para ela um alibi restringindo esse recuo à Europa e pretendendo que, na América Latina ou na Ásia, se erguem novos contingentes de combates iluminadores. A situação nesses continentes é provavelmente pior do que na Europa, dada a violência da ofensiva e a fragilidade das condições da resistência. A Argentina serve de exemplo: onde a tradição do movimento operário era mais enraizada, onde a esquerda revolucionária era mais organizada, onde a revolta popular deu origem a movimentos de auto-organização que determinaram o colapso de sucessivos presidentes, foi onde o recuo se instalou mais depressa. No Brasil, onde a possibilidade de mudar a relação de forças era mais óbvia, a capitulação do PT fez a esquerda recuar uma geração.

A esquerda tem sido derrotada pela globalização realmente existente. Pela estratificação do desemprego e pela precarização da estrutura do trabalho, pelo avanço do liberalismo, pela unipolaridade mundial do supra-imperialismo, pela consolidação das instituições que transformam a Europa num Estado fechado contra a democracia e os direitos sociais. Mas talvez impressione mais que essa derrota tem sido marcada pela falta de combate ideológico, pela falta de ambição para a redefinição de um programa socialista, pela falta de ideias e de debate sobre os caminhos de resposta e de contra-ofensiva. A esquerda está prostrada.

Francisco Louçã, O sectarismo, um fantasma que ameaça a esquerda

Louça é o maior Tribuno da República, sem duvida a figura política que mais tem contribuído para um virar de página no actual regime, mas (e os amigos não são só para prestar vassalagem…) de momento anda estrategicamente desorientado, não se vislumbram no seu pensamento respostas para o momento actual, nem lucidez na sua análise. É pena, contudo também acho que nenhuma personagem isolada (ou mesmo movimento) tem o monopólio da razão. Espero sinceramente que consiga recuperar o seu faro político, se não então que do mal, o menos e que o movimento não fique tolhido devido aos “vacilanços” do seu mais estimado líder.

Voltando ao centro das convulsões, o Iraque, chamo a atenção que para além da propaganda, de facto, os EUA, por várias tácticas têm conseguido gerir melhor o problema, no entanto o vespeiro onde se meteram e criaram é de tal forma poderoso que rompe por vários lados! Se não são os Sunitas e o pau para todas as justificações, a Al-Quaeda, é a difícil escolha entre Turcos e Curdos. Podem escolher apoiar-se no Xiismo oficial mas esse xiismo é telecomandado a partir de Teerão. O Mahdi, o Messias islamo-nacional-populista é o que mais independência tem de Teerão, mas também de Washington… O Império encontrou uma equação de resolução deveras complicada se não parte de um lado fractura do outro. Pensando ter acalmado suficientemente a insurgência sunita, os EUA e seus fantoches (espera mas os fantoches nem são deles! São do Irão lol) viram-se para o alvo nº 2, o movimento do Mahdi. Veremos qual o desfecho… Uma coisa é certa os EUA só livrarão a face se tiver grande colaboração de os vizinhos do Iraque, Irão, Síria, Turquia, Arábia Saudita, Jordânia, Kwait, mas primeiro têm de ter vontade de fazerisso e pagar o preço, segundo mesmo que queiram vai ser difícil conciliar interesses tão dispares, lá voltamos à tal equação difícil…

Mesmo que a suposta estabilidade resultante do reforço das tropas fosse permanente, esta guerra já produziu consequências que afectaram o processo histórico de maneira decisiva. Mas os sinais indicam que a procissão ainda vai no átrio…



PS - People metam etiquetas nos vossos Posts e Rui quem é que preferias ter na Casa Branca daqui a uma ano?
Um falcão na onda Reagan, ou o Obama? Eu não tenho dúvidas, quero alguém que vá vacilar e que na pior das hipóteses seja uma fraude relativamente à vontade popular e a manter a ocupação que o faça de forma ilegitima. O pior neste momento era dar carta branca e caução popular ao militarismo made in USA. Nos momentos críticos a legitimidade não é tudo, mas conta muito mais do que muitos pensam...

5 comentários:

Fenrisar disse...

See please here

Rui Faustino disse...

Creio que há uma primeira consideração a fazer:

Tanto o Partido Democrático como o Partido Republicano são as duas faces da mesma moeda.

Ambos os partidos servem os interesses das grandes corporações e dos grandes capitalistas. Ambos são igualmente financiados por eles...

O desafio histórico que os trabalhadores americanos e a esquerda do país têm pela frente é a constituição dum 3º partido, dum partido trabalhista baseado no movimento sindical e nos movimentos sociais.

Democratas ou Repúblicanos? Onde está a grande diferença?

Sobre o assunto da guerra, é verdade que os pré-candidatos democratas falam em retirada faseada... mas lá está: faseada. Duvido que, se eleito algum deles para a Casa Branca, cumpram efectivamente com as promessas, a não ser que a isso sejam forçados pela opinião pública americana e pela resistência Iraquiana...

Aliás, é bom recordar que foram presidentes democratas (Kennedy e Lindon Johnson) que arrastaram os Estado Unidos para o atoleiro do Vietname, enquanto que a retirada foi organizada pelo republicano Nixon...

Por fim, e sobre a "análise" do Louçã, ela foi elaborada como justificação do acordo PS/BE para governar a Câmara Municipal de Lisboa.

A justificação era (é) simples: "isto tá tão mau, tão mau, tão mau que temos de ter políticas realistas e conformes à péssima correlação de forças"...

Na realidade, verifica-se à escala mundial uma viragem à esquerda. Bem visível na América Latina (por exemplo), mas também na Europa. Ou não foi o surgimento e crescimento do Bloco de Esquerda expressão dessa viragem?

rack disse...

eu penso que quanto à crítica que fazes ao pensamento de Louçã, talvez o devesses ter feito num post próprio, e justificar melhor porque consideras que anda desorientado.
É curioso que este fds pude falar com ele precisamente sobre essa parte desse texto.
Sem querer tornar conversas privadas assunto público, dado que se trata de uma questão política deixo aqui a resposta dele: Concordou comigo que esse texto (para sermos justos talvez devessemos colocar esse texto disponivel aqui na net) tinha um tom de fim de ciclo e disse que de facto o tipo de militância e de partidos necessários à mudança é diferente dos velhos partidos comunistas, é preciso gente mais formada politicamente, o velho partido baseado no sindicato não serve os dias de hoje. Espero estar a ser fiel ao que ele disse.
Construir o BE para ser uma repetição do PCP não vale a pena, rematou ele depois.

rack disse...

E quero dizer aqui que eu penso que de facto esse texto tem uma função num momento concreto: era o tempo do acordo BE/PS e penso que esse texto teve um papel de tentar acalmar os Ânimos, digamos assim, essa é a minha leitura desse texto.

Francisco disse...

Sim era essa a função do texto e o link que coloco dá para o texto todo, texto aliás em que me revejo em muito do seu conteudo (num post anterior deste blog cheguei a citar até frases desse texto...), mas aqueles dois parágrafos são para ir directamente para o caixote do lixo! São coisas demasiado graves ditas de forma demasiado leviana e ele até já negou que tinha escrito parte do que tinha escrito...
Se querem um partido a sério temos de discutir a sério e sem argumentos fáceis para as ocasiões...